Conto – O Arco e a Pólvora

Publicado: 27/12/2012 em Contos, Publicações
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Por Antônio Augusto Fonseca Júnior

Era uma noite boa para sentir a fúria da batalha e ouvir gritos de guerra enquanto o vento fresco era consumido no calor dos corpos em movimento. Pena que o silêncio fosse tudo o que permeasse as árvores frondosas do Sacro-Império Coranuano. Aquela nação guerreira era pura paz dentro de seus próprios domínios, levando as mazelas apenas para os vizinhos que não baixavam a cabeça para suas exigências. Esses poucos que não tremiam ao ouvir que as tropas disciplinadas dos coranuanos estavam chegam movimentavam-se para não serem esmagados e levar o contra-ataque para as bases mais próximas do inimigo.

Flenniap, elfo guerreiro do império Soluah, tinha pensamentos raivosos naquela noite. Estava furioso por causa da cautela que precisava seguir para tentar se infiltrar nas terras dos malditos humanos. Ele, nascido em família nobre, precisava se esgueirar e temer que fosse ouvido para atravessar a mata e chegar até a pequena vila mais adiante. Sua missão, assassinar o Magistrado coranuano que recentemente se instalara lá. Os elfos não sabiam o motivo daquela figura misteriosa ter chegado ao local, mas tão logo souberam das informações, decidiram que não era de se esperar nada de bom vindo da atitude inusitada.Resultado, enviaram Flenniap e outros quatro elfos para o assassinato.

O guerreiro escolhera bem a equipe. Havia dois arqueiros, um mago e um rastreador para guiá-los mata adentro. Os olhos adaptados à visão noturna facilitavam a movimentação dos elfos, mas, por duas vezes, eles quase esbarraram em vigias coranuanos que vasculhavam a floresta. O grupo manteve-se nervoso ao ver s armaduras dos guerreiros de elite do império inimigo. Flenniap sentiu-se envergonhado por eles. Um elfos com mais de cem anos de treinamento deveria ser melhor do que qualquer humano. Porém, era uma pena que as guerras provassem o contrário. Os coranuanos nasciam respirando a guerra. Qualquer vila tinha um campo de treinamento e até os camponeses conseguiam levantar uma espada, para o horror dos reinos de Rannian.

Flenniap avaliou a região mais uma vez. À frente, o rastreador apontava para a melhor trilha. O guerreiro observou as árvores de troncos largos escurecidas na noite. Não havia luar atravessando as folhas. Não havia delicadeza naquelas plantas robustas, crescidas para sobreviver. Tudo era forte e maciço naquele reino. não havia beleza fútil nem na natureza. Sem querer, o elfo pegou-se elogiando os coranuanos. Se seu povo fosse sempre assim, poderiam estar em expansão ao invés de lutando para se defender da ameaça.

– Falta pouco – disse o rastreador. Ele era uma figura pequena, de cabelos cor de cobre, vindo de uma família pouco conhecida em Soluah. Sua forma física equivalia a sua posição social. Flenniap, como nobre e líder, era o oposto. Tinha ombros largos, quase tão poderoso quanto os de um guerreiro humano. Os cabelos dourados combinavam perfeitamente com os olhos de diamante e ilustravam o rosto esbranquiçado. Poderia ser confundido com os deuses se não estivesse usando uma armadura com tão pouco glamour. Assim como o restante do grupo, tinha apenas uma cota de malha coberta por um tecido acinzentado por baixo das capas élficas.

Flenniap deu sinal para os dois arqueiros posicionarem-se mais à frente. Os dois se moveram rapidamente, desaparecendo no meio do mato. O rastreador fez sinal para que o guerreiro e o mago seguissem. Assim eles foram. Correram silenciosamente até pararem na borda da mata. Havia pelo menos duzentos metros de clareira separando as árvores das casas. uma única sentinela estava de vigia naquele lado. Todas as outras estavam embrenhadas na floresta, esperando atocaiar os inimigos que tentassem se aproximar da vila. “Idiotas, imaginam que podem pegar invasores elfos”, pensou Flenniap.

O guerreiro fez sinal para o processo se invasão se acelerar. Cada um sabia o que deveria fazer. O mago, um primo de Flenniap, invocou uma magia de invisibilidade sobre o arqueiro e o rastreador. Agora já tinham um batedor perfeito e um elfo para dar-lhe cobertura. Mesmo protegidos pela magia, rastejaram por metade do caminho, para depois se porem de pé e iniciarem a corrida até a sentinela. O rastreador chegou tão rápido que Flenniap sorriu ao ver a sentinela caindo com o pescoço cortado. Feito o trabalho, o restante do grupo iniciou a corrida. Agora era uma questão de tempo até que dessem por falta daquele soldado.

As botas dos elfos tocaram as pedras que pavimentavam as ruas pequenas da vila. Ficaram impressionados por achar um aglomerado humano tão pequeno coberto por ruas pavimentadas. Aquele império não era um inimigo normal ou… havia algo a mais naquela vila pacata. Flenniap percebeu a diferença quando dobraram a primeira esquina. Um dos arqueiros estava posicionado atrás para a defesa e o outro correu para a posição avançada ao lado do rastreador. Durante aqueles passos rápidos, o grupo viu a cabeça do colega se abrir pouco acima da orelha pontuda. O crânio aberto liberava uma corrente absurda de sangue enquanto o corpo cambaleava para o chão. O rastreador levantou as duas facas que usava como arma e começou a procurar por cobertura. Gritava desafios para algo que Flenniap ainda não via, quando parou de repente. O corpo tremeu no ar com os ombros indo e vindo à medida que furos enormes iam aparecendo no peito. Cada um deles liberava sangue élfico enquanto o rastreador caía de joelhos para se afogar no líquido vermelho que se misturava ao do colega.

– Por Helom! – disse o mago ao lado de Flenniap. Ele esperava pelas ordens enquanto o guerreiro concluía que recuar era um convite à humilhação eterna por não cumprir a missão. Olhou de lado e saltou para perto do corpo dos amigos, assumindo cobertura. O arqueiro e o mago fizeram o mesmo e em brvee uma flecha já voava contra o inimigo. Flenniap ergueu os olhospara ver os soldados coranuanos apontando canos para eles. a flecha acabava de derrubar um deles, por sinal um que tentava colocar alguma coisa dentro do cano. As narinas sensíveis do elfo sentiram o cheiro de enxofre no ar.

– Que magia é essa? – perguntou o mago, surpreso, enquanto procurava componentes para uma magia de ataque e o arqueiro derrubava outro inimigo. Flenniap sabia que aquilo não era magia. olhou mais uma vez para ter certeza e notou o Magistrado de braços cruzados. Vestia uma armadura leve e portava dois aqueles canos curtos na cintura. Aquelas eram armadas de fogo, ferramentas covardes e que ofendiam os deuses. Eram parecidas com as que os primos élficos de Emeneluah utilizavam. Mas por que não faziam barulho? Magia de silêncio! Ele via os lábios dos soldados se movendo, mas não saía som algum. Era hora de seguir enquanto eles recarregavam.

– Preciso de cobertura para chegar a eles! – exigiu Flenniap, sacando as duas lâminas nobres, presentes do imperador. O arqueiro continuou com as flechadas enquanto o mago levantou-se sorridente.

– Pode ir primo…

Flenniap rolou pelos cantos da rua, passando próximo às casas. parou ao lado de uma pequena carroça enquanto contava o tempo e os inimigos. Eram cinco deles, mais três corpos já estendidos no chão. Errado, quatro, pois quatro setas douradas cintilaram pelo ar para explodirem no peito de mais um. O homem caiu com a pele queimada e ferimentos profundos que o matariam nos próximos minutos. O Magistrado pouco fez além de olhar para o soldado caído e os outros inimigos continuaram preparando as armas.

Os tiros recomeçaram. Flenniap contou sete e iniciou a corrida. Notou com o canto dos olhos que o primo mago tombava enquanto a energia mágica que estava para acumular era dissipada. Os ferimentos mortais impediram a concentração. Faria uma prece por ele depois, mas agora o coração de guerreiro apenas dizia que ele deveria continuar. Os coranuanos haviam perdido seus tiros.

– Fleneli Helom! – o guerreiro chamou, dando ordem para que o arqueiro atirasse tudo o que pudesse naquele meio tempo.

Os passos de Flenniap ficaram lentos de repente. Aqueles poucos metros aumentaram muito. E aquilo não era efeito de magia, mas da surpresa quando o guerreiro viu o magistrado levantado uma pistola e mirando. Um segundo soldado ao lado dele tinha um rifle encostado no ombro, também preparado. Não, eles não poderiam ter mais munição. Não havia tempo. Ele contara… um tiro para cada rifle e mais dois para as pistolas do Magistrado. Eles estavam blefando.

Foi uma pena para os elfos, porque os coranuanos não tinha o hábito de blefar em batalha. Flenniap não precisou se virar para saber que, quando o soldado atirou com o rifle, a cabeça do arqueiro explodiu. A bala passara pelo olho e destruíra globo, nervos e o cérebro, enquanto se alojava próxima ao crânio. O corpo mole que caiu era o mesmo destino de Flenniap.

– Chama-se pistola de repetição – disse o Magistrado, apertando o gatilho.

O elfo continuou correndo. Gritava todos os nomes do panteão da raça e avançava. A magia de silêncio dos coranuanos perdera o efeito e o estrondo da pólvora explodindo acordou morados e agrediu os ouvidos do elfo antes que a primeira bala fizesse seu estrago. Era um aviso do que estava por vir.

O projétil deixou a pistola quente como brasa sem perder o calor enquanto voava. O metal furou o tecido preto como pedra caindo no lado, tilintou por frações de segundos ao vencer a resistência metálica da cota de malha e nem precisou de esforço para romper rapidamente a pele, deixando uma ferida vermelha, redonda e sangrenta ao penetrar no corpo. Raspou de leve em uma costela, aumentando a sensação de ardência enquanto destruía artérias até finalmente experimentar ar de novo, agora o ar quente que enchia os pulmões de Flenniap. O elfo quase não sentiu os tiros seguintes. Contou sete enquanto corria. Um resvalou na cabeça, retirando um pouco o equilíbrio. Outros quatro furaram o peito, o penúltimo acertou o ombro e o último se perdeu na noite.

A corrida perdeu fôlego tão rapidamente quanto o sangue que se esvaia com facilidade do corpo do elfo. Os coranuanos não se mexeram enquanto viam o inimigo se aproximar. Não dariam um passo mesmo que um elefante estivesse em carga rumo a eles. O Magistrado adiantou-se e esperou pelas espadas do elfo. Elas vieram com movimentos fracos e programados pelo cérebro que se desesperava por oxigênio. O coranuano desviou-se do primeiro e segurou o braço que tentava o segundo golpe. por fim, enfiou uma lâmina na garganta do elfo.

– Chama-se baioneta – disse, enquanto via o sangue escorrer pela lâmina e descer pelo cano quente da arma. Esperou que as reações do corpo acabassem antes de liberá-lo para a queda dos cadáveres. – Limpem tudo e queimem os corpos. Preparem-se para mais treinamentos amanhã. Vamos investir nessas armas de repetição. Elas serão úteis.

O teste dera certo. Os arcos élficos podiam ser rápidos, porém não tinham o poder de uma pistola de repetição. Os coranuanos haviam trabalhado anos naquelas armas. Alquimistas e pesquisadores da guerra investiram suas vidas para criar aquilo. Naquela noite, soldados morreram para provar na prática o benefício que as armas poderiam trazer nas situações mais inusitadas de batalha. Agora, com os últimos testes quase no fim, os coranuanos preparavam-se para um golpe final. Era hora de fazer os elfos engolirem seu orgulho.

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